sexta-feira, 13 de julho de 2012

Meu diálogo com Reggio Emilia e com seu Projeto Educativo


*Fabiane Vitiello de Oliveira

Dias antes de embarcar, procurei ler ainda mais sobre a cidade de Reggio Emília e seu projeto, que me encanta desde 2008. Li muito sobre o universo que rodeia essa cidadezinha ao norte da Itália e sobre suas peculiaridades. Dentre tantas leituras, encontrei um texto de Debora Vaz onde ela nos contava suas impressões durante sua primeira visita a cidade e as escolas. Debora nos relatava que as escolas de Reggio tinham cheiros e isso me intrigou. Claro que no momento que li, me remeti ao fato das escolas terem a cozinha como um grande laboratório de paladar, olfato, tato, mas daí a escola ter cheiros, na minha cabeça, havia uma lacuna grande. Lacuna essa que foi sendo preenchida à medida que os encontros com a cidade e com as escolas foram acontecendo.

Conheci a cidade de Reggio Emilia de uma maneira muito particular. Saí do Brasil com a expectativa de me tornar íntima dessa cidade de alguma forma e consegui 

06h20 lá estava eu na porta do hotel Astoria pronta para desvelar os segredos de uma Reggio que ainda acordava. Me sentia acolhida pelo frio, dessa cidade pertinho dos Alpes, ao entrar no Jardim Público para iniciar as minhas corridinhas. Era assim que me sentia, acolhida. Acolhida por uma cidade que foi avassalada por uma guerra. Acolhida por uma cidade que soube dar a volta por cima e retomar a vida. Acolhida por uma cidade que mostrou a força de suas mulheres ao decidirem que havia de se construir uma escola e não um cinema, como seus homens gostariam. Acolhida por uma cidade que, por ironia, tem sua grande referência em um homem, Loris Malaguzzi, que teve a sensibilidade exata para levar esse grupo de mulheres adiante. Acolhida por uma cidade que fez com que suas crianças estivessem no centro de tudo. Acolhida por uma cidade que, através das crianças e pelas crianças tornou-se uma referência mundial em educação. Acolhida, essa é a sensação que melhor define meus dias em Reggio Emília.

Correr pela Reggio ainda adormecida, silenciosa, ausente de pessoas, foi uma das melhores sensações de minha vida. Entrava em pequenos becos, passava por uma praça, me deparava com construções muito antigas, saía em um jardim, enfim, um trajeto digno de boas lembranças!! E a cada dia, tendo como fundo musical, os passarinhos, eu pensava na história daquela cidade, imaginava quantas vezes Loris havia passado por aquela praça, o quanto essa cidade foi palco de eventos positivos e negativos e o quanto de espaço as crianças reggianas ou as crianças que vieram de outros locais do mundo, mas que também foram acolhidas por Reggio, possuem. O cheiro que exalava das casas nesse horário era de café e de brioches. Sim, a cidade também tem um aroma próprio.

Conhecer as escolas de Reggio e,em especial Diana e Michelangelo, é algo que também me marcou profundamente. As escolas de Reggio ( assim como Aletheia, escola localizada em Buenos Aires, que amo !!) tem vida! Sim meninas, tudo aquilo que lemos e relemos, acontece entre aquelas paredes transparentes! Um arrepio tomou conta de mim ao observar as crianças em comunhão (essa é a palavra que define, para mim, o que vi, comunhão no sentido de união, em busca de uma resolução comum) nos momentos de trabalho em grupo. O valor da relação, do encontro, da autonomia e também da responsabilidade conjunta, eram aspectos que se faziam presentes. 

O cheiro que tanto me intrigou, se fez muito presente em uma das escolas. Aquele aroma de macarronada da nona!! Hum !! Inconfundível. Eis aí, um pouquinho do cheiro que Debora nos relatou outrora.

Em outra escola, Andersen, onde as crianças prepararam o café e toda ambientação dos espaços para nos receber , Simonetta Cittadini, mantenedora de L̓ atelier School, localizada em Miami me disse algo muito especial, você deve levar com você a sensação e reinventar. Isso faz todo sentido e diferencial. As sensações me acompanharam durante toda minha estadia.

Enfim, ao chegar a Praça dos Leões e me debulhar em lágrimas abraçando a Telma, tive a certeza que essa foi somente a minha primeira viagem para Reggio e outras tantas ainda virão. Tive a certeza que o meu futuro e o futuro da Diálogos continuará, essencialmente, ligado a esse projeto educativo. Em 2010, escutei a mesma Simonetta dizer que Reggio Emilia estava em ressonância com seus sonhos. Faço dela as minhas palavras, Reggio Emilia está em ressonância com os meu também.

*Pedagoga, pós-graduada em Psicopedagogia, estudiosa da Abordagem Reggiana, ministra cursos e palestras a professores da rede pública e particular. Sócia – fundadora da Diálogos – Viagens Pedagógicas. . Presta assessoria a escolas de educação infantil. 


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Reggio 2012: De malas prontas!


                                                                                     *Cândida Silva

No ano de 2009 tive o meu primeiro contato com o sistema educacional de Reggio Emilia, ainda na faculdade comecei a me apropriar deste contexto, que naquele momento parecia mais algo surreal, fantasioso.  Diante do quadro educacional existente no Brasil é complicado até pensar que exista algum lugar, uma cidade, em que a educação infantil é preservada, e respeitada.
Comecei a participar das reuniões mensais da RedSOLARE Brasil neste mesmo ano. Nestas reuniões são apresentados projetos, relatos, ações de escolas de Salvador (escola das diversas esferas: particular, municipal e comunitária). Reunião de pessoas com um mesmo propósito, mesmos sonhos, mesmos ideais e a mesma preocupação com a melhoria na qualidade da educação infantil.
Os Seminários foram fonte de muita inquietação. Estive presente em todos desde 2009. Nestes seminários podíamos sentir aqui no Brasil um pouco do que se passava nas escolas em Reggio Emillia, tínhamos diálogo com pedagogistas e atelieristas. E a cada diálogo, cada apresentação, cada debate ou discussão me sentia mais provocada a estudar, pesquisar. Mas ainda faltava beber da fonte...
Pensar sobre a possibilidade de ir para Reggio Emilia me passou pela cabeça ainda em 2011. Nesta época estava organizando o Grupo de Estudos e por ver toda a movimentação, nas mensagens das pessoas que buscavam por informações, a expectativa de todos que já estavam inscritos e os comentários de retorno pós-viagem.  Toda energia emanada das pessoas que cultivavam o sonho de ir para Reggio Emilia me contagiou. A partir daí as minhas malas começaram a ser arrumadas. Enchi as malas de desejo, curiosidade, esperançar e fé. Um enorme desejo de ir muito longe, atravessar um enorme oceano, conhecer um pouco de certa essência, absorver um pouco de tal coragem. A coragem de priorizar a criança e uma educação infantil que pense na formação integral do ser humano.
Em 2012, a certeza de que viajaria para Reggio Emilia me fez buscar todos os sentimentos que haviam me inquietado durante esses anos e colocar em minha mala. Finalmente a sede seria saciada, sede de conhecer, sede de conhecimento, de aprendizagem. Com um grupo de 119 brasileiros fui conhecendo a cidade, numa semana muito intensa onde se respirava educação infantil. A cultura da infância defendida em diversos idiomas.

Visitei escola Paulo Freire, fiquei muito encantada, não apenas pelos jardins e flores. Não somente pelos trabalhos realizados. Vi crianças de diversas etnias convivendo em harmonia, se pudéssemos  aprender com elas, tanta gente precisando aprender. Ensine-nos crianças, as diferenças existem e precisamos conviver e respeitar todas elas, quem sabe assim poderemos ter o mesmo brilho no nosso olhar.
As atividades foram iniciadas, e cada minuto foi muito precioso, nada podia ser perdido pouco tempo para captar tanta informação. Pude compreender o funcionamento das escolas Reggianas na prática, o que antes parecia confuso e impossível se tornou  claro e compreensível, a importância da documentação  e principalmente sobre à valorização e respeito em relação à infância.
Para quem pretendia voltar com  as malas cheias, compreendi que não existem fórmulas prontas, entendi também que os contextos são diferentes, o Brasil apresenta um outro contexto, uma outra realidade. Ir à Reggio Emilia não deve provocar um sentimento de frustação, nem tampouco ações radicais. É preciso exercitar o bom senso. A mensagem principal que deve se tirar da experiência é a de  que somos capazes de construir um lugar em que a nossa criança tenha prioridade, seja preservada e amparada, para isto é preciso acreditar, lutar e promover ações.

*Pedagoga, membro da RedSOLARE Brasil polo Bahia e da ESSE Consultoria.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Reggio: Lá e de volta outra vez...



*Nayara Vicari de P. Baracho

Só ao entrar no trem em Bologna tive percepção de que era real: sim, eu estava indo para Reggio Emilia pela segunda vez. Era um sonho que se repetia.
                Desde a primeira vez em que tive contato com a abordagem de Reggio Emilia para a Educação Infantil, me identifiquei e me encantei com seus propósitos: era uma educação que não apenas declarava, mas acontecia tendo a criança como sujeito de direitos, participativa em seu processo de aprendizagem, competente e que é ouvida pelos adultos a sua volta. Foi o encontro de sentimentos e vivências de minha vida pessoal com a aspiração do que poderia fazer em minha vida profissional. A cada encontro, palestra, seminário com representantes de Reggio, me sentia revigorada e ainda mais disposta a entender as respostas que essa cidade encontrou para pensar a educação da infância. Porem, foi também enquanto ainda estava na graduação , que participei de discussões sobre a cultura brasileira de importar e valorizar modelos e propostas internacionais – sabemos que, infelizmente, não só na educação... Foi a partir de então que, além de um olhar admirado, passei a enxergar a abordagem de Reggio Emilia como inspiração, como ampliação de repertório para minhas práticas. Para mim, Reggio passou a ser não a resposta, mas a provocadora de perguntas.                                                                                          
                                                                                                               Reggio Emilia, em fevereiro/2011
                Foi com esse sentimento de provocação que participei do grupo de estudos de 2011. De que forma a política,  a participação, a questão ética, a estética, a formação dos professores, a voz das crianças, o ambiente como terceiro educador, o currículo flexível, enfim, como os principais pontos que ajudam a entendermos o trabalho realizado pelas escolas estariam relacionados com o meu fazer? Eu, pretensamente, já havia escolhido o caminho que para mim era o fio que ligava todos esses pontos: a documentação. Era a partir dela que estava estudando e buscando compreender a expressão de todos os princípios da abordagem. E     estava certa de que, durante a semana, ela seria meu grande foco.
                Porém, como normalmente acontece no cotidiano da educação infantil, meus planos precisaram ser alterados pela realidade que encontrei... Eu estava encantada. A cidade, as pessoas, as escolas, a experiência de estar vivendo tudo o que tantas vezes idealizei durante leituras e encontros me fez querer abraçar tudo aquilo da maneira que pudesse. E eram tantas novidades e descobertas que entendi que não adiantava tentar olhar para a documentação, dentro dessa proposta, sem também olhar o contexto em que estava inserida.
                Após minha volta, retomei meu olhar para a documentação, buscando entendê-la enquanto prática relacionada a formação de professores, a concepção de infância, ao envolvimento e diálogo entre os principais sujeitos do processo educativo (crianças, pais e educadores). A proposta de documentação dentro da abordagem de Reggio é uma possibilidade de crescimento inspiradora para qualquer contexto educacional, porque parte do que está disponível em todos eles: as crianças. Há, atualmente, estudos e ressignificações de práticas de documentação em diferentes países, como Escócia, Portugal e países da América Latina. Acredito que essa difusão foi possível pela plasticidade da documentação, pois, para que aconteça, não são necessários investimentos ou mudanças significativas no ambiente, mas, sim, a mobilização e vontade dos profissionais envolvidos com as crianças na escola para a realização de pesquisas sobre as questões de desenvolvimento e ensino e aprendizagem na primeira infância. Não há roteiros ou padrões a serem seguidos, formas certas ou erradas de fazer, necessidade de material específico.
                                                                                                                       Reggio Emilia, em maio/2012
             Assim, nessa segunda viagem, tentei não criar expectativas e estar preparada para novas vivências e descobertas. Olhar e ouvir novamente sabendo que eu não era mais a mesma pessoa que havia estado lá ano passado – e, por isso, nada seria igual. Era o novo, de novo. E isso possibilitou um olhar mais tranquilo e objetivo. Nessa segunda viagem, especialmente durante as visitas, pude estar mais atenta a documentação e seu significado enquanto um processo amplo com o intuito de tornar visível o trabalho pedagógico e a aprendizagem das crianças, buscando conferir sentido à prática vivida no dia a dia das escolas. Consegui, enfim, estar atenta ao que me propus na primeira viagem, pois já havia tido a oportunidade de encontrar, pensar, repensar e refletir. Pude aprender muito, de novo. Volto de Reggio acreditando cada vez mais na documentação como instrumento de pesquisa e transformador de práticas, que auxilia educadores e famílias no entendimento da criança enquanto sujeito do presente, com potencialidades e direitos, por meio da visibilidade de seus processos de aprendizagem. Como instrumento que pode ser utilizado por todo contexto que sinta necessidade de movimentar-se na construção de práticas democráticas para a infância. Essa jornada é fácil? Com certeza, não... Mas, com a inspiração de Reggio, já demos nosso primeiro passo. O numero crescente de brasileiros, ano a ano, no grupo de estudos, é um sinal de que podemos percorrer juntos essa caminhada!


*Pedagoga e Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de Sao Paulo com a dissertação “A documentação na abordagem de Reggio Emilia para a Educação Infantil e suas contribuições para as práticas pedagógicas: um olhar e as possibilidades em um contexto brasileiro”.


quarta-feira, 7 de março de 2012

Grupos de Estudos em Reggio Emilia 2012

Caros Educadores,


Com a proposta de reflexão das práticas educativas das escolas municipais de Educação Infantil da comunidade da Reggio Emilia, o Grupo de Estudos possibilita que pesquisadores da América Latina repensem suas práticas e aperfeiçoem os processos vivenciados em suas realidades.

As práticas vivenciadas em Reggio Emilia traduzem os princípios, crenças e valores difundidos por Loris Malaguzzi ao procurar dar visibilidade à imagem da criança competente e criativa, incitando a Pedagogia da Escuta, o valor das relações estabelecidas, a parceria com as famílias e o fomento à pesquisa. O que permite que o educador investigador estabeleça diálogos e autorregule o seu processo formativo e, sobretudo, inspire-se em Reggio, mas busque dar identidade ao seu contexto de atuação. 

Em fevereiro, tivemos mais de 30 inscrições confirmadas! Solicite a ficha de inscrição e participe deste diálogo! 

Contato:
Telefone: 55 71 3356-0037/ 71 9125-6040/ 71 87590862 Cândida ou 55 71  87330635
 E-mail: redesolarebrasil@gmail.com