domingo, 6 de dezembro de 2009

Diálogos entre redes - Brasil e Paraguai - abril /2008




*Marilia Dourado
A alegria do convite e a beleza da partilha.
Para contar um pouco das experiências inspiradas na Reggio Emilia, que temos vivido no Brasil, escolhi inicialmente a imagem do mar, uma das riquezas naturais mais apreciadas pelos vizinhos paraguaios que com freqüência nos visitam para desfrutar desta fonte inesgotável de inspiração. Creio que isso nos aproxima e apóia o nosso diálogo.
Vejo as experiências da Reggio Emilia também como fonte de inspiração. Sinto sempre uma necessidade enorme de diálogo com e sobre a prática educativa que nela ocorre. A cidade da Reggio tem marcas que chamam a atenção e traduzem muito de um espírito próprio. Na chegada as pontes projetadas pelo arquiteto espanhol, Santiago Calatrava, que nos recebem, comunicam a marca cosmopolita e de diálogo e relação com o mundo, o cotidiano da cidade expressa um espírito respeitoso, solidário e cooperativo, este espírito se vive em toda a cidade... Reggio Emilia é pequena, acolhedora, charmosa, inquieta, aconchegante, cultural e com uma presença forte de marcas medievais pelas ruas. Nela tem história, tem passado, presente e projeção de futuro.
Em tempos tão difíceis em que situações sociais e políticas dividem e endurecem o coração dos homens, somos convocados a cultivar a esperança e desenvolver uma consciência planetária em defesa de todos a partir do que vimos em uma cidade de abriga 150.000 habitantes e abraça todo o mundo. Sabemos que a expectativa do amanhã depende desta visão!
Já nos dizia Loris Malaguzzi, educador italiano responsável pelos sonhos construídos na Reggio Emilia que as conexões e interconexões no mundo são mais fortes do que imaginamos. E, por isso mesmo defendeu a construção de redes de relações como possibilidades criativas de expressões e comunicações múltiplas.
Mais uma vez penso no mar, na sua imensidão e nesta hora, identifico algumas palavras que o representa: complexidade, diversidade, subjetividade, multiplicidade.
Para a Reggio estas são palavras-chaves que caracterizam a escola, os diferentes sujeitos sociais (crianças, educadores e família) que nela habitam e as relações vividas. Sendo assim, não têm um modelo fixo e sim crenças, valores, idéias e experiências abertas a um horizonte de variedades.
Desta maneira cultivam uma sensibilidade enorme que inclusive conecta os diferentes acontecimentos e permite as pessoas encontrarem e construírem sua identidade e seu próprio sentido em relações respeitosas e complementares com o mundo e a natureza.
Por que temos vivido situações que surpreendem e assustam no mundo atual?
Malaguzzi nos convoca a refletir sobre as relações entre mente e natureza, homem e ambiente como relações de interdependência, reciprocidade e complementaridade.
Temos recebido deste mundo o que temos oferecido a ele.

É por isso que nos perguntamos com freqüência:

• Que Escolas temos oferecido as nossas crianças?

• Que crianças temos oferecido as nossas Escolas e as nossas cidades?

• Que Escolas queremos e devemos oferecer as nossas crianças?

• Que crianças queremos e devemos oferecer as nossas Escolas, as nossas cidades?
Essas são questões que nos convocam a refletir e aprofundar o pensamento transdiciplinar das escolas reggianas, pensamento este que é capaz de unificar, garantir unidade. É a certeza que as partes interagem entre si, é uma visão sistêmica e holística da vida e dos homens. Com esta mesma lógica Malaguzzi afirmava que pensar na formação dos homens é ter a certeza que o cérebro não pode ser considerado a parte mais importante do organismo, desta maneira, a concepção é da centralidade que destruiria a circularidade desejável das relações.
Estas são algumas das idéias, crenças e valores que identificamos no pensamento de Loris e na prática educativa das escolas da Reggio.
Resgatando a idéia da construção da identidade a partir das diferentes relações, compartilho com vocês a inquietude cultivada pelas escolas brasileiras a partir do diálogo com a Reggio:

• Quais são os valores desta Escola?

• Estes valores estão claros, públicos e compartilhados?

• Quantos desses valores são colocados em prática?

• O que é mais difícil e mais fácil colocar em prática?

• Quanto e em que medida é possível defender estes valores?

• Quanto é possível sustentar, propagar e traduzir na prática estes valores?

• Qual a coerência entre o que falamos e o que fazemos?
Estas perguntas nos convidam a reflexão, a busca pela essência. Se voltamos ao mar, relacionamos a inquietude destes questionamentos com o reino secreto do fundo do mar, com o que muitas vezes é inalcançável ou não está aparente, é pouco conhecido e por isso mesmo, incomoda, talvez as contradições que fazem parte da vida, dos seres humanos. Nos deparamos também com a maré baixa, que nos convida ao silêncio e nos revela outra vida, aquela que está sob a superfície. A maré vazante traz para praia as conchas, diversas delas, variados tamanhos, cores e formas.
Aqui entram as estratégias, os materiais, recursos, e instrumentos que passaram a fazer parte do dia-a-dia das escolas para apoiar na tradução dos valores, crenças e idéias no seu cotidiano.
Para concluir é importante contar para vocês que nos Brasil cinco escolas privadas estão organizadas em uma REDE que também está conectada com escolas em países na América Latina. Cada uma dessas escolas estabelece uma parceria com uma escola pública e a partir desta relação dialogam sobre as suas práticas inspiradas na Reggio Emilia e os desafios que enfrentam.
Trouxe para vocês algumas conchas para que busquem sempre inspiração e lembrem que o mar vai e volta eternamente.

* Representante Nacional da RedSOLARE Brasil

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