domingo, 28 de novembro de 2010

Relato de visita - ESCUELA ABIERTA, Buenos Aires

*Tatiane Nascimento

Localizada em um sossegado bairro da Zona Norte da cidade de Buenos Aires, Argentina, está a Escola Puerta Abierta. Pequena e aconchegante, traduz com harmonia o que Loris Malaguzzi quis dizer ao se referir ao ambiente como âmbito: educativo, criativo, pulsante, reversível.


De fato, sob a forte e consciente inspiração vinda das escolas da cidade de Reggio Emília, Itália, a Escola Puerta Aberta revela um pensar-educação simples e verdadeiro. Dessa inspiração foi traçada sua filosofia educativa. O nome da escola traduz esta visão: “abrir a porta nos permite ter acesso ao outro.”

A escola apresenta como pilares de sustentação de seu fazer pedagógico: comunidade educativa, participação, interrelação, diálogo entre as crianças, professores, pais e comunidade.

São textos que encontramos nos murais coloridos:

“- Comunidade educativa: o jardim é um lugar no qual são geradas interações entre os três principais atores desta comunidade, crianças, professores e pais.

- Participação: é uma estratégia que caracteriza o fazer da escola. A participação dos pais representa uma experiência carregada de emoções e ações, que lhes permite compartilhar e ampliar seu marco social.

-Diálogo: a própria identidade se constrói no encontro com o outro, no intercâmbio e na reflexão consigo próprio. Por que Porta Aberta? Consideramos a criança como protagonista, como comunicadora; tomamos o espaço físico como educador, tomamos o professor girando e acompanhando o educando, incluímos os pais como sócios, onde a participação é considerada essencial.”

Ao andar pelos espaços, vimos que a escola tem ambientes harmônicos que se retro-alimentam. Suas composições nos remetem ao que Alfredo Hoyelos, em seu livro, A ESTÉTICA NO PENSAMENTO E OBRA PEDAGÓGICA DE LORIS MALAGUZZI,nos falou da dimensão estética como

“ parte integrante de uma estrutura de pensamento que sempre, e em qualquer caso, é capaz de integrar processos evolutivos, e que nas situações de aprendizagem pode sustentar e alimentar um conhecimento que não só se nutre de informação, senão que, evitando uma definição fácil das categorias, leve a uma relação de sensibilidade e de empatia com as coisas, solicitando a criação de conexões.”

Composta por dois segmentos, o NIDO (3 meses e 2 anos) e KINDERGARTEN, crianças maiores( de 3, 4 e 5 anos), organizados em dois prédios contíguos. NIDO é um lugar de encontro, projetado para os nenês de 3 meses. “Para que possam estar em um lugar especial, pensado para eles, para quando seus pais necessitam reincorporar-se ao trabalho, e onde suas aventuras na vida podem fluir entre agradáveis e confortáveis lugares: a casa e a criança.”

NIDO promove uma vida social desde o nascimento, um ambiente onde pais, avôs, tios, irmãos são acolhidos, refletindo um projeto educativo personalizado, caracterizado por uma metodologia própria e diferenciada.

A visão da escola sobre Documentação - (dar a voz às crianças pequenas)

A documentação é descrita na Puerta Abierta como possibilitadora da visibilidade das ações dos pequenos. Ela sustenta a memória das crianças, oferecendo-lhes a oportunidade de rever seu próprio processo, de encontrar a confirmação ou a negação e de poder se auto-corrigir. “A documentação permite às crianças comparar-se com os outros, convida a auto-evoluções e evoluções grupais, conflitos cognitivos e discussões.”

A documentação também viabiliza aos pais ver e acompanhar os processos de aprendizagens de suas crianças, e este estilo metodológico é adotado porque, segundo consta nos murais,

“a escola tem o direito e a obrigação de fazer visível a infância e a sociedade em geral, para provocar intercâmbio e discussão (...)A criança mostra muito rápido que tem uma voz, mas sobre todo um saber escutar e querer ser escutado. A escola, como contexto de escuta múltipla, utiliza a documentação para lograr este fim. Significa, para nós outros, fazer tornar possíveis e visíveis as relações que são estruturantes para o conhecimento.”

Citando Alfredo mais uma vez, vimos que “Através da documentação se desvela uma escola que quer argumentar seu trabalho além das palavras, uma escola que pensa, que reflexiona, que aprende no caminho, uma escola que sabe pôr-se em discussão pública, capaz de escutar e dialogar com democracia, construindo processos de confiança recíproca e legitimidade pública.”

Isto é visto e vivenciado na forma como as documentações traduzem os feitos dos pequenos. Expostas nas paredes, comunicam muitos projetos, de interação com a natureza, de adaptação, da escuta sensível aos pequenos, entre outras coisas.
E assim conhecemos a Escola Puerta Aberta, um âmbito educativo para crianças e adultos, mais um reduto inspirado pelas escolas de Reggio Emília.



*Tatiane Nascimento é gestora do CMEI Cid Passos - Escola do Grupo de Cooperação - Salvador - Bahia.

sábado, 27 de novembro de 2010

O olhar de um grupo de mineiras...

*Equipe diretiva da Escola Navegantes

Chegamos a Salvador com muito desejo de compartilhar o que vivemos e de conhecer a sonoridade das vozes que por muito tempo estiveram em contato conosco via e-mail, olhar nos olhos dessas pessoas que estão distantes e ao mesmo tempo fazem-se tão próximas de nós, em conexão com os mesmos sonhos e ideais, partilhando anseios e inquietações.

A equipe da Navegantes estava ansiosa pelo momento de partilha, onde nos propomos a dialogar com os parceiros uma documentação realizada por um grupo de crianças da escola, aos poucos fomos desacelerando e nos sentindo pertencentes àquele contexto. Agradecemos a escuta, a acolhida, o respeito e as contribuições de todos os presentes no grupo de aprofundamento. Para nós foi muito intenso, exigiu uma entrega e sentimos essa entrega dos outros participantes também. Toda a vivência do dia 04 expressou e contribuiu para a relação de respeito e confiança presentes no grupo de cooperação.

Em nosso primeiro encontro com as escolas do grupo, contamos também com o olhar de Juan Carlos; a presença de um atelierista tão sensível e atento abriu-nos os horizontes, como bem disse Morgana a sensação era de que uma luz estava sendo acessa, iluminando novos caminhos e possibilidades.

Algumas indagações permanecem em nossas mentes causando produtivas dores de idéias; aprofundar mais, degustar os detalhes, observar e saborear com todos os sentidos a impressionante maneira das crianças serem e estarem no mundo. De que forma as crianças expressam seus pensamentos? Que papel cumpre o jogo no universo infantil? O que é imaginação? Perguntas que provocam desequilíbrio interno e ao mesmo tempo oferece subsídios para construirmos nossa própria plataforma de trabalho.

Depois de ouvir e nos apropriar da beleza e da complexidade de tantas experiências envolvendo escuta atenta, dedicação e respeito perante a Infância, nossas projeções não cabem dentro de nós, começamos então a conjeturar ações, movidas pelo clima de esperança e garra que nos apropriamos ao estar em contato com iniciativas em prol da Infância de repente nos vemos envolvidas e nos sentindo de fato co-responsáveis pela causa da Infância.


*Silene, Mônica e Morgana.

Escola Navegantes- Escola do Grupo de Cooperação -Uberlândia MG.

sábado, 20 de novembro de 2010

Novo Olhar sobre o 5º Seminário da RedSOLARE Brasil


*Carol Uzeda


Gente. Gente diferente, envolvente, interessante, apaixonante... Gente boa, gente fina, gente “da gente”. Ouvir e vivenciar o 5º Seminário da Redsolare Brasil tornou possível e rico o diálogo com outros educadores, ampliando o olhar e os horizontes sobre a Educação Infantil. Conhecer mais de perto as diferentes maneiras de “fazer”, pensar, agir, as diversas formas de sentir a prática, a vida, os desafios e a forma que propagam as nossas ações, nossas falas e atitudes.


O encontro tornou possível viver essa multiplicidade que estamos imersos e o quanto estamos próximas. Minas, Sul, México, Colômbia, Reggio e Brasil, contextos distintos e complexos que se encontram em um espaço privilegiado e democrático de diálogo, produtivo para pensar a cultura da infância. Refinar idéias, levantar questões, investigar, repensar... Uma experiência instigante e prazerosa.

Perceber o compromisso das meninas da Cid Passos – Salvador - BA e o relato envolvente da professora Lenise, consolidou a crença da Reggio como inspiração e não exatamente como um “modelo” a ser seguido. Identifiquei-me com as professoras do Centro Educacional Caminhos em Lajeado – RS quando, socializando a filmagem, nos confidenciava as inquietações, fruto de uma prática consciente, refletida, intencional e respeitosa. A professora Thaíza, da Escola Navegante em Uberlândia MG, revelou uma prática recente mais cheia de beleza e fascínio que nos convida a aprofundar as idéias e exercitar a pedagogia da escuta. Ao ouvir Alba, da Escola Colmeia - Salvador - BA, pensamos sobre como deve ser constante a busca pela compreensão do olhar da criança. Olhar este inteiro, complexo e intenso. E como esta criança explora o espaço, a cidade, o meio urbano que vivencia. Espaço que não é pensando para ela, mas é reinventado por ela. Rita de Cássia, da Escola Creche Pequeno Aprendiz, em Itabuna - BA, encantou e convocou o grupo a aguçar o olhar e perceber, de maneira sensível o que as crianças nos trazem do contexto, da sua cultura. Lindo e empolgante relato: O Pequeno Fazedor de Pipas. Fernanda, da Nossa Infância – Salvador - BA, me conforta quando traz os princípios da escola onde trabalhamos revelado nas ações das crianças, contando-nos uma vida de beleza e responsabilidade.


Juan Carlos, Atelierista – Bogotá/ Colômbia, impressiona com sua palestra! Encanta a sua maneira de falar, de pensar ambientes, das intenções, questionamentos... Instiga a aprender, buscar, procurar as fontes de pesquisa... Encoraja a busca, a produção e fortalece a prática com as crianças.
Valeu muito! Boas memórias ricas trocas!

Marília, mais um encontro vitorioso, produtivo e aconchegante! Bom sentir-se acolhida e instigada!

Na oportunidade, agradeço à Sandra Torzillo, minha diretora, que sempre antenada, nos apoiou nesta jornada.
Abraço grande!


*Carol Uzêda é pedagoga e educadora do 1º ciclo de Educação Infantil na Escola Nova Nossa Infância – Salvador – BA.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Encontro 03.11 - Livraria Cultura Villa Lobos - Sâo Paulo

"Ambientes curiosos, crianças criativas, pesquisa da revista Newsweek, neurônios espelho, cortina do teatro, as 100 linguagens das crianças, 5.7%, infância perdida, ambiente circular, Reggio Conta, Scuola Diana, slow food, etc...Com certeza toda esta experiência e "viagem" que eu fiz a Reggio Emilia em três horas de palestra são hoje uma nova inspiração para a minha prática. Agradeço novamente a Marília Dourado e Elaine Pires pela excelente palestra ministrada em São Paulo na semana passada. Como eles dizem lá na Itália...Grazie Mille!"


Sandra Rodrigues /Professora de inglês da Escola Caminho Aberto - São Paulo

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O olhar da cidade sobre a criança

Abertura do 5º Seminário Latino Americano de Educação Infantil da RedSOLARE Brasil



*Elaine David Pires



Reggio Emília é uma “cidade” que olhou para a criança e a infância como suas grandes possibilidades de recriação e reconstrução social. É uma cidade que vê a criança como cidadã com direitos e por direito. E, que, portanto, tem direito à educação de qualidade, à manifestação e à escuta atenta. Além de ser reconhecida como protagonista competente com capacidade inesgotável de criação e construção, respeitada no seu equivocar-se (faz parte do caminho), nas suas cem linguagens, cem formas de ler e comunicar sua compreensão de mundo... para si e para o mundo.

E, qual "O Olhar da Cidade sobre a Criança"?

Qual é o olhar que as cidades do Brasil depositam sobre nossas crianças?

Em muitos momentos e instâncias, de modo massificador, um olhar de consumismo, de sexualidade antecipada, de mão de obra barata ou escrava, de moradores de rua sem escolas e sem escolhas, outras com excesso de escolhas construindo o conceito de que liberdade está associada ao “eu quero, eu posso” independente do respeito ao outro.
Será que ao mirar os olhos das cidades, as crianças se vêem refletidas ou vêem seus olhos – de desejos, anseios, curiosidade, autoria... - refletidos?
Será que não vêem miniadultos sem infância e, no entanto, muitas vezes, afetivamente infantilizados?
Em momentos de troca, ouvi que luno (luz) e o radical a (ausência) compõem a palavra aluno (sem luz).
É a ausência de luz que a criança ainda vê refletida ao mirar-se nos olhos dos professores que se intitulam mestres, mas se colocam como centro da relação com o conhecimento como se fossem a luz salvadora – o detentor e transmissor do conhecimento?
Posso afirmar que muitos e muitos (milhares) educadores já têm um novo olhar. Os que se reuniram no Seminário Latino Americano cujo tema foi o Olhar da Criança sobre a Cidade não se vêem mais sob este prisma. São profissionais que renovaram e renovam, a cada momento, seu olhar sobre a criança e a infância.
Necessitamos irradiar essa luz de nossos novos olhares. Multiplicar a nova concepção de criança que há por trás deles. E, efetivamente, construir mais espaços de aprendizagem ricos, estimulantes, desafiadores e possíveis para as crianças e para nós, educadores.
Se não devemos deixar de lutar enquanto todas as crianças de nosso planeta não forem felizes e reconhecidas em seus direitos, também, não podemos deixar de buscar, estudar, trocar, crescer, transformar e re-transformar nossas práticas, de modo a incentivar, propiciar e favorecer a que elas atribuam sentido à suas aprendizagens. Seus próprios sentidos e não os nossos; uma vez que são as experiências, relações e aprendizagens delas e não as nossas.
Respeitar o direito da criança cidadã é respeitar sua forma de significar e re-significar, construir, desconstruir e re-construir conhecimento.
A criança de ontem e de hoje são parceiras da criança da criança do futuro na construção do amanhã.
O educador de ontem e de hoje são parceiros do educador do futuro na construção do amanhã.
Não há como negar o que fomos e o que somos na ânsia de nos tornarmos melhores.
Assim como as crianças, merecemos tempo e precisamos aproveitar este tempo.
Não importa a velocidade e sim a direção para onde caminhamos, pois quando chegarmos “lá”, desejaremos seguir um pouco mais adiante. Isto faz parte da busca pela excelência. Como disse Paulo Freire: “A alegria não se dá apenas no encontro do achado, mas faz parte da busca. Ensinar e aprender não pode se dar fora da procura, fora da boniteza e da alegria.”

*Elaine David Pires é representante da RedSOLARE Brasil no Pólo São Paulo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Memórias e Olhares sobre o 5º Seminário Latino Americano - parte 2 - CMEI Almir Oliveira - Salvador - Bahia

O olhar do CMEI Almir Oliveira sobre o Seminário Latino Americano Redsolare Brasil - O olhar da criança sobre a cidade: Um diálogo com as práticas educativas da América Latina inspiradas em Reggio Emília.

* Equipe de educadores do CMEI Almir Oliveira - Salvador - Bahia





Com relatos de escolas brasileiras aprendemos...


A Escola Nova Nossa Infância - Salvador - BA, conta que fazer parte da RedSOLARE Brasil, tem seus princípios fortalecidos. Fala de uma experiência de amor, afeto e conhecimento numa documentação que narrou os diálogos das crianças com subjetividade, diversidade , participação e criatividade. Convocados a pensar de forma estética e investigadora.
A Escola Caminhos - Lajeado - RS, reflete a visão sobre as atitudes cotidianas da escuta com interesses e potenciais. Uma des-aceleração-educador como compromisso. O cenário de vivência, estudo, pesquisa e escuta giraram em torno de aspectos sociais, institucionais e naturais.
A experiência de Itabuna - Bahia nos faz acordar sobre como é grandioso o retorno/ resposta da criança quando valorizamos a sua cultura, seus desejos, suas crença. Isso significa ancestralidade: respeito aos que fomos e aos que virão.
O CMEI Cid Passos - Salvador - Bahia como sempre dando passos largos e para todos os lados resgatando o valor real da cultura infantil. Desequilibrando para resolver questões com inquietações que surgem.
A Escola Navegantes - Uberlândia - MG, nos atenta que para dialogar com as crianças as profesoras tem que entrar no jogo simbólico, já que as crianças trazem suas projeções sobre as coisas. É preciso levar as crianças a campo para que sempre novas projeções apareçam.
Alba, da Escola Colmeia - Salvador - Bahia - nos contou com muito entusiasmo uma experiência, onde foi desenvolvida uma rica fonte de pesquisa sobre como as crianças compreendem o mundo. A participação das famílias foi muito importante para que o projeto acontecesse. E nos deixou uma reflexão: Como convocar e provocar ainda mais as crianças?
E para finalizar e iniciar um longo e infinito período de diálogo...
É importante ressaltar a visão que a criança tem de fora da escola.
A paixão pela educação, a disponibilidade de comprometer-se, o respeito ao diálogo as crianças, a disponibilidade para entrar num diálogo forte e difícil e aceitar esse desafio.
É importante valorizarmos a cultura da nossa cidade com atitude de respeito as escolhas de cada um.
A escola deve se comunicar com o exterior, pois desempenha um papel importante na sociedade e um marco forte na história de uma pessoa.
Qual o papel político da escola na construção de uma sociedade?
E assim....
Vimos sonhos reais em atitudes possíveis. Isso depende dos olhos de quem vê e dos desejos de quem sonha.
Experiências que agraciaram a nossa intelectualidade e fortaleceram a nossa luta por uma valorização da infância em todos os seus olhares, gestos, cores,...
Esses processos devem ser exteriorizados e aplaudidos sempre, porque deixam marcas de elegancia, de conquista, de competencia, de prazer; em que todas as crianças são inteligentes e dotadas de potenciais únicos que devem ser reconhecidos, nutridos e celebrados.
(re)pensar
(re)desenhar
(re)organizar
(re)fazer
(re)agrupar
(re)significar

Tudo isso para (re)descobrir um mundo novo de possibilidades onde a alegria, a história, o respeito e a escuta sensível faça-se presente em sua plenitude. Isso é estabelecer relações com o outro utilizando as formas de linguagens mais profundas.
Isso é a RedSOLARE Brasil!



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Memórias e Olhares sobre o 5º Seminário Latino Americano - parte 1 - CMEI Almir Oliveira - Salvador - Bahia

O olhar do CMEI Almir Oliveira sobre o Seminário Latino Americano da Redsolare Brasil - O olhar da criança sobre a cidade: Um diálogo com as práticas educativas da América Latina inspiradas em Reggio Emília.

* Equipe de Educadores do CMEI Almir Oliveira


O seminário teve a ilustre abertura pela orquestra “Estrelas de Amaralina”, da instituição ibarra, composta por crianças e adolescentes em situações de risco. Uma atitude simples que transformou a vida dessas crianças.

Esse mimo foi a chama inicial da nossa inspiração. Uma atitude de crença, convicção e persistência.
Crianças são capazes! Muito além da nossa imaginação.

Em seguida pudemos refletir acerca dos acontecimentos desses dois dias de Seminário através da fala de Juan Carlos Melo – atelierista de Bogotá, Colômbia – que defende a atitude de um diálogo sério, transcedente e necessário em defesa da cultura latente nas crianças.

Sausan Burshan – Representante da Redsolare México – lembra-nos que falamos línguas diferentes, mas podemos nos entender com o coração porque defendemos a infância e falamos de crianças com potenciais.

Contamos também com a presença de Dr.ª Márcia Guedes – representante do Ministério Público da Bahia – que nos diz que basta apenas um ato de vontade para a educação acontecer, precisamos apenas fazer uma revolução/ redefinição de ética e valores.

Marília Dourado – Representante Nacional da Redsolare Brasil – nos fortalece na militância da causa da educação infantil. É no convívio com as diferenças que seremos capazes de oportunizar ricas situações para as nossas crianças. Expõe que a Redsolare Brasil defende a cultura da infância no sentido de valorizar o enorme potencial das crianças, o dever dos educadores em revelar as crianças em todas as suas linguagens e defende e divulga a prática educativa em Reggio Emília, na itália, onde podemos encontrar caminhos possíveis para a infância ser valorizada. Exprime que a intenção desse seminário gira em torno de mobilizações de pesquisas feitas em diversos locais através da reflexão de como está sendo construída hoje nas crianças a idéia e o sentimento de cidadania, o que significa para as crianças e para cada um de nós ser cidadão e como a criança concebe a cidade em que reside.

Elaine Pires – Representante do Pólo Redsolare Brasil - São Paulo – exprime que assim como as crianças merecemos tempo, não importa a velocidade e sim a direção. E quando chegarmos lá sentiremos vontade de ir sempre mais. Isso faz parte da busca pela excelência.

Na palestra de Juan Carlos melo sobre os processos da documentação pedagógica, tivemos um breve conhecimento sobre a cidade para que clareasse a demonstração do trabalho desenvolvido com as crianças, crianças que sentem e se comunicam com o mundo e consigo mesmas. Nos encanta ao dizer que a documentação pedagógica permanece viva pelo desejo e curiosidade do olhar da criança ao se apropriarem de ferramentas e elementos a seu próprio modo. Segundo Juan, a documentação é uma relação curiosa para entender como a infância traça sua história. Quando documentamos usamos linguagem, imagens pertencentes aos desafios naturais que as crianças participam em seus processos de conhecimento, nas emoções, nas interações, nas ações, na sensibilidade. São como recursos para reelaborar como as crianças aprendem, para entendermos a profunda relação com a linguagem plástica e narrativa das crianças. O processo de memória é importante pela constatação das investigações das crianças e ao mesmo tempo é o trampolim para continuarmos.

Na palestra de Sausan Burshan sobre o olhar das crianças sobre a cidade e o universo cultural, pudemos constatar como é a apreciação das crianças através de exploração da linguagem fotográfica, onde as crianças retrataram significados de mundo a partir de seus pontos de vista, olhar o potencial da criança e a procura do meio para que proporcionasse seu desenvolvimento. A documentação começa com o interessa de um grupo novo e o questionamento é que direciona o projeto. A concentração, o dialogo com o lugar, as diferentes formas de pesquisas que as crianças usam, a participação da família e planejamento diretivo dão vida ao projeto e revelam como as crianças constroem seus conhecimento. O educador deve provocar todo interesse delas para que o conhecimento seja construído de forma agradável e provocadora. O professor tem que conhecer muito sobre o construcionismo social, conhecer a proposta, além de auto-analisar constante e rever as ações que são propostas. Permitindo errar é a melhor forma de aprender.

No relato de experiência do México, Sausan conta-nos sobre um projeto que valorizou a cultura dos maias, onde foi trabalhado a língua, hábitos, história e costumes. Começou através de questionamentos de crianças que não se viam enquanto maias e assim partiu a importância de trabalhar isso, unido crianças num intercambio cultural abrangendo também outros aspectos como vestimentas, danças, religiosidade. O projeto fortaleceu a identidade das crianças, elevou a autoestima delas: as crianças entenderam a civilização, se viram e se reconheceram como maias. Um futuro construído com passado, uma feliz geração com memória

Na palestra de Juan sobre o jogo e o pensamento plástico da criança, ele informa que a documentação é uma responsabilidade para verificar o desenvolvimento emocional e cognitivo e que deve ser feito com muita leveza. A prática deve ser reflexiva. O atelier deve ser feito com produtos reaproveitáveis e arrumados pela própria criança. Para fazer escola diferente devemos fazer transformação no pensamento, que geralmente é linear. Pensar em desequilíbrio é pensar em construir soluções. A escola sistêmica é uma escola de escuta. O erro é visto como várias possibilidades de construção e o professor deve promover ambiente favorável para isso, o erro é uma variável e que a criança usa para criar estratégias e alcançar objetivos. O interessante é a essência.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Abertura do Seminário - "O Olhar das Crianças sobre a Cidade".

* Marilia Dourado


Este Seminário é o 5º da RedSOLARE Brasil e estamos muito felizes pelo significado dele para todos nós, educadores do mundo. Com este encontro e também reencontro, reafirmamos o valor das relações: entre países, estados, cidades... entre pessoas, educadores, professores, gestores, coordenadores, auxiliares e famílias de instituições públicas, particulares e comunitárias.

Acreditamos que realizar iniciativas como esta, que focam na educação em relação e expressam o nosso sentimento, a nossa esperança e a nossa busca como educador, mas acima de tudo como pessoas, em qualquer parte do mundo em que vivemos, é o caminho para a construção de uma realidade necessária, uma vida feliz, justa, marcada pela esperança, a realidade que buscamos para todos e todas que vivem no planeta, a nossa casa. Porque educação é um fato social, cultural e político que vive necessariamente de diálogos, de solidariedade, de partilha, de tudo que se pode crer a título de diversidade, de VIDA - Vida global que defende a relação de interdependência entre homens e nações.

Para Malaguzzi, educador responsável pelo Projeto da prática educativa da Reggio Emília - Itália, formamos parte de um mundo em que as distâncias estão se encurtando. Isto nos oferece a possibilidade de sermos habitantes de muitos mundos, com grande interrelação entre as culturas, o que significa que nunca estarmos sós. E viver em relação implica em uma consciência planetária e no exercício pleno da cidadania.

Esta ideia nos convida a refletir:

Como está sendo construída hoje nas nossas crianças a ideia e o sentimento de cidadania?

• O que significa hoje para as crianças e também para cada um de nós, ser cidadão?

Para aprofundarmos estas ideias que implicam em compreender a nossa concepção de mundo, sociedade, espaço educativo, homem, criança, aprendizagem, pensamento e múltiplas linguagens, organizamos este encontro com o tema “O Olhar da Criança sobre a Cidade”. Para escutar atentamente as suas vozes convidamos nossos amigos e parceiros de sonhos e realizações, da Colômbia e do México, assim como, educadores de 6 instituições do nosso país, de 3 estados diferentes (Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais), que viveram experiências singulares, como guias e orientadores, investigando com profundidade, as teorias das crianças, as mais diferentes formas de expressão das suas ideias e pensamentos. Desde fevereiro/2010 estas espaços educativos dialogam entre si, participando do Grupo de Cooperação da RedSOLARE Brasil e aprendendo juntas: a arte de educar numa perspectiva criativa, de valorização e respeito ao enorme potencial das crianças, em permanente diálogo com a Reggio Emília.

Nessas relações compartilhamos nossas idéias e concepções que influenciam nossas teorias, esperanças, palavras, pensamentos e emoções. Ao interagirmos uns com os outros, identificamos interdependências que nos levam a construir-nos e reconstruir-nos como num caleidoscópio constantemente num mundo, que se amplia e ao mesmo tempo encontra focos, assim como acompanhamos esse mundo em que estamos inseridos transformar-se. É surpreendente e também realizador constatarmos que a realidade é re-elaborada por nossa própria atuação nela. Esta é a defesa da Cidade de Reggio Emília e da educação que é feita nela. Esta é a nossa inspiração!

Loris Malaguzzi com a sua Pedagogia da Escuta que muitas vezes foi denominada “transgressora porque luta contra a acomodação, a chatice, o tédio. Procura intencionalmente - com amabilidade e paixão - a alegria, o otimismo e a ironia. É transgressora, também, por sua capacidade de assumir riscos, de realizar eleições e desafios múltiplos, e por sua imaginação constante para transformar o utópico em possível; e o possível em real”.

“Também podemos afirmar que é uma pedagogia transgressora pela idéia de um projeto que leva a Loris a reconhecer as múltiplas direções ou infinitas bifurcações dos acontecimentos. Mas esta idéia, que assusta e pode paralisar, em Malaguzzi e em Reggio se transformam numa energia criadora. Trabalhar em educação é, também, fazer eleições, saber selecionar. E Malaguzzi tinha a capacidade de saber fazer as indicações justas e oportunas, os caminhos a seguir. Era como alguém que apontava sempre na direção oportuna com a idéia de ir além. Sempre reconhecia um caminho novo pelo que seguir”.

Temos escolhidos caminhos que nos desafiam a todo o momento, mas que também nos encoraja porque sabemos que a nossa realidade nos convoca a agir na urgência. Acreditamos que se trata de uma atitude cotidiana, uma relação empática e sensível com o nosso contexto, com o meio em que estamos inseridos. Identificamos que existe “um fio que conecta e ata as coisas entre si, um ar que leva a preferir um gesto a outro, a selecionar um objeto, a eleger uma cor, um pensamento; escolhas nas quais se percebe harmonia, cuidado, prazer para a mente e para os sentidos”.

Existe também um olhar que descobre, que admira e se emociona. É o contrário da indiferença, da negligência e do conformismo.

É por isso que constantemente formulamos novas perguntas que não tem respostas únicas, nem fáceis. Queremos deixá-las como pontos de interrogações que nos ajudem a compreender o valor deste Seminário e dos nossos permanentes encontros:

O que é mesmo uma cidade?

Como as crianças transitam pela cidade?

Quais são os gostos das crianças?

Como utilizam os elementos da cidade?

Qual a relação entre cidade e escola?

Como as escolas apoiam as crianças a compreenderem a sua cidade?

Para Ítalo Calvino "É uma cidade igual a um sonho: tudo o que pode ser imaginado pode ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então o seu oposto, um medo. As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam obscuras, as duas coisas escondem uma outra”.

Queremos muitas outras instituições dialogando conosco. Muitos outros educadores participando desta mobilização. Este momento é pois um novo convite para que desfrutemos de cada olhar, expressão, fala, escuta, cheiros e sabores das crianças, abramos o coração e aprendamos com elas, pois hoje podemos afirmar que com as crianças descobrimos muito mais das nossas cidades:

Cidade antiga, cidade moderna,
Cidade com muitos sonhos e desafios,
Cidade das dores e dos amores,
Cidade contradição,
Cidade da dimensão humana, cidade das crianças
Cidade insegura e com segurança
Cidade poesia, cidade romântica,
Cidade invisível
Cidade proibida,
Cidade de muitos segredos,Cidade de ontem, hoje e amanhã,
Cidade das crenças e de mita mobilização.
Cidade feliz e infeliz , mas também em busca permanente da FELIZcidade!

Que a busca seja uma constante em nossas vidas, assim como as nossas realizações, as transformações em possível, daquilo que nos parecia impossível.


*Marilia Dourado é a representante Nacional da RedSOLARE Brasil e membro do network Internacional da Reggio Children – Itália.