domingo, 20 de junho de 2010

A experiência de descobrir belezas nos materiais da Escola

*Mônica Galvão Lopes

A vida de instituições que se propõem a trabalhar com Infância sempre me instigaram e envolveram, fazendo-me vislumbrar ambientes carregados de afetos, desafios, oportunidades...
A escola precisa ser concebida como um lugar onde vivemos histórias, construímos laços, nos constituímos. Espaço de encontros e desencontros, é lá que estão nossos maiores desafios. Como diria Madalena Freire “a escola é a continuação da vida”, portanto não pode ser considerada como uma ilha, nem tão pouco, fechar seus portões para o contexto de suas crianças. Pelo contrário, seus muros devem ser “derrubados” para que haja comunicação direta com famílias e comunidade. Acredito que o desenvolvimento se dá nas relações, no movimento, nos laços que se constituem como suporte de superação.
Ao começar meu trabalho de assessoria em escolas de Educação Infantil na cidade de Uberlândia MG, conheci realidades muito distintas, cada uma com sua identidade e autenticidade, mas todas abrigando sonhos, desejos, vontades, sentimentos que fluíam e se convergiam em um propósito comum; fazer valer a voz das crianças e colocar suas produções em lugar de evidência dentro da escola e em espaços públicos de nossa cidade.
Antes de tudo, precisávamos cuidar com muito zelo e minúcias do lugar onde iria desenrolar essa história de coragem e determinação. Uma empreitada envolvendo todos os componentes da comunidade educativa, considerados peças imprescindíveis para que o ambiente da escola pudesse ser prazeroso e convidativo, propício à construção do conhecimento. Nossa intenção é que as organizações espaciais das escolas possam aguçar os sentidos, fazendo emergir uma atmosfera única, com sentido próprio. Para tanto, começamos a apurar o nosso olhar, contemplando o espaço com olhos tipicamente infantis, buscando as múltiplas possibilidades em materiais não estruturados.
Penso que a beleza de cada objeto, mobiliário, ambiente planejado, está na história que cada um carrega, está no suor derramado no momento da estruturação.O que há de misterioso nos ares dessas escolas feitas a muitas mãos, são os vínculos afetivos que se misturam com a arte de recriar, trazer para compor o espaço um pedaço de madeira velha, garrafas, carretéis de fio elétrico, baldes, enfim, objetos que seriam dados como lixo, mas que no momento em que alguém se propõe a pensar e dar valor a eles, se transformam em verdadeiras obras de arte.
Essa magia de transformar materiais alternativos se mistura com a magia de transformar simples aulas em verdadeiros espetáculos, onde os protagonistas são crianças e professores, juntos de mãos dadas autores de suas próprias histórias. Com esta nossa proposta, nos preocupamos com o material, com a atenção aos mínimos detalhes, não somente com espaço de fora ( físico), mas também com nossa morada interna, esse lugar tão íntimo que merece ser acolhido, respeitado, seja perante os conflitos das crianças quanto dos adultos.
A experiência de descobrir beleza nos materiais da escola, nos mostrou o quão importante se faz descobrir tesouros e belezas no interior das pessoas envolvidas na trama escolar ( adultos e crianças), que começaram a ser acolhidas e ouvidas. A escola é mesmo feita de muita diferente gente, cada uma trazendo sua contribuição, seus valores para serem somados aos valores e concepções de outras. Nessa diversidade nos encontramos, pois, é na complexidade das diferenças que nos tornamos simplesmente GENTE.
O encantador nesse trabalho é observarmos a sensibilidade do olhar das crianças e o fazer de suas mãozinhas tão pequenas em todos os cantos da escola, seja nos móveis que compõem a sala de aula, em objetos inusitados que são criados para servir de suporte para suas próprias documentações. Consideramos o momento da criação uma oportunidade única para trazer à tona a subjetividade em suas múltiplas facetas.





Criança confeccionando um banquinho para o ateliê da escola.












Desde o primeiro passo, que é o de projetar o que será feito, colocando no papel seus primeiros esboços até ver seus próprios projetos tomando formas, as crianças estão imersas em um universo que compreende a possibilidade da interação, a comprovação de que suas idéias estão sendo acolhidas e colocadas em prática, a oportunidade de entrar em confronto com suas próprias limitações e avançar com elas.
Caixotes de feira delimitando zona da sala de aula
Falo aqui de escolas que estimulam a experimentação, que convidam as crianças para entrarem nesse jogo lúdico entre a imaginação criadora, os elementos da natureza e outros materiais não estruturados. Nesses espaços, a voz da criança possui importante papel transformador, o educador considera cada raciocínio e media a criança em suas intenções.





Caixotes de feira pintados pelas crianças para organização de materiais no ateliê da escola.







Podemos contemplar espetaculares instalações pelos corredores dessas escolas, onde os projetistas e artistas são de fato as próprias crianças, os atelieristas e educadores também entram e experimentam a diversidade de materiais e criam suas obras, compondo um ambiente que envolve e encanta pelo fato de ser permeado de histórias e sentimentos.

Registros da mostra fotográfica realizada pelas crianças.

                                          Mesa feita em carretel de fio elétrico.



Mandala confeccionada com pedrinhas, galhos secos e sementes.

* Mônica Galvão Lopes – Diretora Pedagógica Da Escola Navegantes – Uberlândia MG

Um comentário:

Alba Bezerra disse...

Mônica, querida!

Fiquei muito emocionada ao ler o seu texto e, especialmente, a ver forma como você dá a visibilidade ao enorme potencial criativo das crianças, transformando os espaços das escolas em ambientes cheios de vida que expressam o desejo de uma coletividade.

Um abraço bastante afetuoso,

Alba Bezerra