domingo, 17 de outubro de 2010

“Como um avião que voa bem alto no céu...”

* Alba Bezerra

“...Entre as nuvens
Vem surgindo um lindo
Avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo
Com suas luzes a piscar...
Basta imaginar e ele está
Partindo, sereno e lindo
Se a gente quiser
Ele vai pousar...”



            
No aeroporto de Salvador me deparo com um grupo de crianças da Escola Municipal de Periperi, do Subúrbio de Salvador, radiantes por acompanhar o embarque de sua professora.
A cena logo me salta os olhos e nos emaranhados dos meus pensamentos, algumas reflexões começam a emergir:
  • O que representa para estas crianças essa experiência?
  •  Como a relação vincular entre as crianças e os adultos e o propósito que as unem podem indicar perspectivas?
Aproximo-me e pergunto o que elas estavam fazendo ali? Sem pestanejar, uma das crianças diz: “A gente veio se despedir da "pró" que vai estudar na Argentina. Ela vai viajar de avião e o avião voa bem alto no céu...”
As crianças têm essa capacidade de nos encantar sempre! Com um brilho peculiar da infância elas acabaram de me dar uma metáfora, antes mesmo de chegar ao Encontro Internacional realizado em Buenos Aires: “El enfoque de Reggio Emilia en la educación: experiencias en diálogo.”
Como um avião que voa bem alto no céu e leva vários passageiros, cada um com a sua bagagem e expectativas para este encontro formamos uma tripulação animada.

No embarque, uns em grupo, outros a sós, mas todos imbuídos de um mesmo propósito: dialogar com as experiências de Reggio Emilia para se aproximar e/ou se fortalecer na difusão da cultura da infância para que os nossos meninos e meninas tenham uma infância digna e rica em possibilidades de expressão das suas múltiplas linguagens para revelarem o quanto são inteligentes e competentes.
A decolagem sempre provoca sensações distintas. O frio na barriga é um indicativo, é um convite para nos implicarmos com a causa: Somos um país multicultural e de quase 200.000.000,00 de habitantes.

Nesse contexto, não temos nem um terço de atendimento a primeira infância.
  • Esse é um dado que nos mobiliza?
  • O que temos feito por nossas crianças?
  •  Que oportunidades temos dado a elas?
  •  Como temos possibilitado o convívio com as diferenças para que todos aprendam com a experiência?
  •  Por que é preciso olhar para a infância de uma forma diferente e mais sensível?
  •  Por que observar e escutar atentamente as crianças e dar visibilidade ao pensamento delas tem nos possibilitado ser um educador diferente?
  •  Como Reggio consegue dialogar com distintas teorias sobre a infância de forma tão coerente?
  •  Como Loris Malaguzzi e todos aqueles educadores que fizeram e fazem a história de Reggio ecoam as vozes de grandes mestres da educação sem transformá-las em “religião pedagógica?”
Após a decolagem, momento de desequilíbrio, vem à adaptação. Capacidade genuína de qualquer organismo vivo para se ajustar a um novo contexto. Claro que cada um tem o seu tempo de processar a informação e compreender.
No caminho, durante o trajeto, da viagem muitos diálogos. Vários pontos de vistas, distintas formas de enxergar uma mesma realidade. Nesse ínterim, muitas relações estabelecidas, construídas e fortalecidas. Risos, conversas sobre o cotidiano de nossas escolas, conversas sobre a vida... Vida!!! Todos os temas nos levam a fazer uma relação com a prática educativa de Reggio. Vida, dinâmica, interação, afinidade, diversidade, respeito, tolerância, inteireza, subjetividade, curiosidade, assombro, sensações, descobertas, experiências compartilhadas... O que seria de nós se não fossem os outros, pois como disse sabiamente, certa vez, Carla Rinaldi: “O outro somos nós!”
No pouso, a sensação gostosa do encontro e do reencontro como grandes colegas educadoras que começaram com a RedSOLARE Brasil na luta por esta causa, por esta utopia realizável na defesa da cultura da infância. Nos nossos olhares, palavras trocadas, abraços calorosos, a alegria de ver um auditório lotado, representado pela grande maioria de brasileiros com o desejo de colocar as experiências educativas realizadas em diálogo com Reggio. Uma alegria por reconhecermos o quanto somos capazes e o quanto somos fortes, só nos basta aprender a fazer com, a realizar ações conjuntas, a “abrir as portas de nossas escolas” para dialogar sobre as experiências buscando a interlocução, o apoio contínuo, o comentário de retorno para que possamos sair da zona de conforto e darmos um passo mais além.
Imbuídas deste sentimento, a RedSOLARE Brasil faz a diferença trazendo um discurso político, mas muito lúcido e sensível, que mexe a fundo nas nossas almas... Um discurso cheio de provocações e que desperta na plenária muita emoção... Um discurso que rompe barreiras e relações de poder e mostra uma experiência piloto para os 13 países da America Latina que ali estavam representados, a experiência do Grupo de Cooperação formado por instituições públicas e privadas de várias partes do Brasil e que dialogam e se retroalimentam. Buscando a beleza da riqueza desta troca. Quantas aprendizagens... E a certeza de que “um mais um é sempre mais que dois...”
No retorno para casa, a mala quase não fecha... São tantas as lembranças... São tantos os contatos de novos tripulantes... São múltiplas as lições aprendidas...
Amelia Gambetti, Emanuela Vercalli, representantes da Reggio Childrean e todas as colegas da RedSOLARE Latino Americana, obrigada pela companhia durante todos esses dias.
Esta viagem ficará marcada na memória e no coração.



*Alba Bezerra

RedSOLARE Brasil
Coordenadora da Escola Colmeia
SECULT/BA








Um comentário:

Anônimo disse...

A tal da saudade que valeu a Pena...

É assim que sempre brinco toda vez que você viaja.

Mãezinha! Você realmente me surpreende a cada dia!
Viver com você, andar com você, aprender com você é uma das experiências mais ricas que um ser humano pode ter. Apesar de não demonstrar devidamente, eu te admiro muito pela sua alegria e leveza de viver a vida em todos os aspectos. Mas como estou falando do seu lado profissional, não há palavra que defina a sua fabulosidade com as crianças e as "infâncias nossas de cada dia". Batalhadora, dedicada, comprometida e acima de tudo competente, eu digo sempre que você não tem uma profissão mas sim uma ideologia de vida! O que é algo de uma nobreza absurda num mundo que vai se esvaziando com o escorrer do tempo.

Como já te falei, educação infantil não é a minha área. Meu diálogo sempre foi pro mundo e não para um grupo específico. Mas rezo todos os dias e tenho fé que vou ter a mesma destreza que você tem na hora em saber defender os seus ideais. Você pensa que quem ganha é você mas quem sai com o lucro maior sao as crianças que se Deus quiser serao adultos conscientes, devido as lições diárias da Reggio, da RedSOLARE, de Madalena e Paulo Freire e, principalmente, Alba Bezerra!

A cena mais encantadora que já pude observar, mãe, é te ver falando do seu trabalho (seja em casa, na Colmeia, nas palestras...)! O brilho nos seus olhos ao lutar pela infância é de arrepiar! É muito lindo! Você devia ver! É emocionante demais a vida, a esperança, o amor, a fé que emana dos seus olhos ao falar desses sonhos infantis!

O texto está ótimo, assim como tudo o que você faz! Meus sinceros parabéns! Te amo muito e prometo que depois escreverei no blog! Obrigada por ter feito a minha saudade valer a pena!
E lembre-se do que Che Guevara nos ensinou: "Os grandes só parecem grandes porque estamos ajoelhados", entao se valorize mais e aprenda a reconhecer e agradecer os seus passos.

Com todo o carinho do mundo!
Emilly B.