sexta-feira, 6 de setembro de 2013

"Montar o Caminho não é fácil" - Relato do Encontro Mensal do Polo São Paulo, junho/2013



“Acho que o quintal onde a gente brincou é maior que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade...”. 

Manuel de Barros (2003)


Adriana Salles*
Paula Ruggiero**

No dia 22 de junho, abrimos as portas e janelas da Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental “Grão de Chão” para receber, junto com a luz do sol desta manhã de sábado, educadores e profissionais de diferentes escolas e segmentos em mais um encontro da RedSOLARE Brasil - Polo São Paulo.

“Pelos Caminhos do Grão”, apresentado por Paula Antunes Ruggiero, uma das mantenedoras e coordenadoras da escola, teve como objetivo, compartilhar uma das concepções da prática educativa que embasa e dá corpo às diferentes possibilidades lúdicas na rotina das crianças: a “criação de espaços do brincar”.

Nas duas unidades (Grãozinho e Grão), localizadas na Rua Tanabi, no bairro da Água Branca, zona oeste de São Paulo, crianças de 1 a 6 anos, vivem, experimentam e compartilham descobertas, na rotina de todo dia. No Quintal da escola, o contato com a natureza é favorecido. As árvores, os bichos, a água são sentidos e explorados diariamente. Trazem sensações, texturas e cheiros. O chão de terra que faz a poça, modela os pés, lambuza as mãos, permite marcas.  

E neste espaço privilegiado nasce o “Caminho”, um recurso material a serviço do movimento, da brincadeira e das relações. É composto por: tábuas, tonéis, cordas, tecidos, caixas de papelão, módulos de madeira, bancos, pneus e tudo o que puder ser agregado. 

A prática de construir um Quintal diferente a cada dia e a prática do Caminho, nos trouxe a concepção do “espaço mutante”. Ele é construído por uma dupla de professores e/ou auxiliares junto às crianças, à medida que vão chegando à escola. O professor constrói e reconstrói para poder ter um novo espaço do brincar; brincar que será inventado e imaginado pela criança. A regularidade deste fazer é uma das marcas do projeto da escola, e essa regularidade é uma ritualização. 

Esta tradição é passada dos educadores mais antigos para os mais novos na escola. Eles passam as noções básicas de segurança, sugerem temas e composições. Fotos de caminhos diferentes, registram ideias, momentos que servem como memória e como inspiração. O importante é que as tábuas e os tonéis fiquem firmes, os pneus, os bancos e os módulos de madeira são grandes aliados nisso. A participação de todos nesse processo de construção é valorizado e respeitado. 

Montar o Caminho não é fácil. Ele possui materiais pesados, que exigem cuidados e força para manipulá-los. A construção é coletiva e em dialogo, porque ela se faz diferente a cada dia. Não é possível construir o Caminho sozinho, sem a ajuda do outro, num diálogo com as crianças, que manifestam os desejos.

No período de adaptação ele é baixinho, no final do semestre pode ser ousado. As crianças pequenas são orientadas e acompanhadas neste percurso, pelas crianças maiores e pelos educadores, até que conquistem firmeza e autonomia para explorá-lo sozinhas. É importante que a altura das construções respeite todas as faixas etárias, garantindo que os pequenos possam ter desafios seguros, bem como os grandes possam arrojar nas alturas.
O Caminho cria percursos a serem percorridos, espaços ou nichos de aconchego, túneis para entrar e sair, rampas de escalada, circuitos circulares, plataformas que convidam a pular, percurso longo com grandes desafios, um picadeiro, enfim, ele permite o prazer da repetição do movimento, como o jogo de puro exercício, movimento e percepção. Algumas crianças agregam teclados, telefones e outros objetos para dar sentido a sua brincadeira simbólica. 

Para além da subjetividade, o Caminho propõe o exercício do corpo: a força, o equilíbrio, os diferentes movimentos de abaixar, rastejar, pular, andar, subir, descer.  Traça limites, demarca o dentro e o fora. 

As interações entre as crianças acontecem de diversas maneiras neste espaço disparador do brincar. As crianças imitam umas as outras, tem que negociar os espaços, esperar o outro passar, aguardar a sua vez. Muitas crianças criam e sugerem regras, incluem e excluem.

O Caminho permanece montado durante parte do período. Ao final, é guardado pela equipe de professores e pelas crianças maiores (de 4 a 6 anos), quando o Quintal se transforma em ambiente que as convida para a vivência de outras propostas que contemplam múltiplas linguagens. Há, portanto o tempo de construir, de brincar e de guardar. 
O Caminho faz do Quintal um grande laboratório de descobertas, representações e socialização entre crianças de diferentes idades. 

Como proposta formativa, que dá luz a um estreito diálogo entre a prática educativa e seu significado no contexto das vivências infantis, os educadores são convidados a “escutar” com seus múltiplos sentidos a registrar olhares e assim, pelo viés da fenomenologia, construir narrativas que muito nos revelam sobre o desenvolvimento das crianças.

 “O mundo contido no silêncio” 
Cenário: À sombra de uma árvore 
Educadora: Adriana Salles

Sentada em uma cadeira de plástico azul, feita especialmente para o seu tamanho, ela apoia o teclado do computador sobre duas tábuas do caminho e delas faz uma mesa. Sem se dar conta do espaço em que seu escritório toma forma, ela desfruta da sombra de uma das árvores do Quintal.

Com uma de suas mãos aperta aleatoriamente as teclas, com a outra, segura um controle remoto, que por vezes vai à orelha, como se fosse um telefone. Seu olhar longe mostra que seus pensamentos, talvez, também, estejam distantes, voando pelo mundo.

De repente, na calmaria de seus movimentos, cavalos apressados galopam com seus cavaleiros pela mesa de seu escritório, fazendo do teclado de seu computador, um delicioso obstáculo a ser vencido.No sentido inverso, logo depois, dois atletas apostam uma corrida, sem perceberem que nesta rampa, ou melhor, neste escritório, alguém os observa atentamente e pensa.

Uma arrumadeira contente e saltitante vem em seguida, com um rodo apressado em mãos, que limpa tudo o que encontra pela frente.
A menina pensativa agora foca seu olhar em duas cozinheiras, já muito conhecidas por ela, que com colheres de pau, mexem sem parar, o vazio que preenche suas panelas.

Contam histórias e mais histórias a ela, que, sorri e continua sem nada dizer. Uma delas oferece, com muito carinho, algo feito em uma tampa reciclada. Ela bebe e, novamente, apenas, sorri.

Findando este tempo infinito (10 minutos aproximadamente) ela levanta, sorri e finalmente interrompe seu precioso silêncio: “Acho que está na hora de arrumar o Grão!”


*psicóloga e educadora do G5 da Escola Grão de Chão
**psicóloga e coordenadora pedagógica da Escola Grão de Chão




BIBLIOGRAFIA utilizada e indicada para pesquisa e aprofundamento do tema: 
Piaget, Jean – Seis Estudos de psicologia
Hernandez, Juan Carlos - El Espacio Ambiente, Elementos Para La Autonomia.
Haddad, Silvia Bogik – “O caminho” Espaço de construção imaginação e transformação do brincar. TCC do curso de pós-graduação de arte interativa. Universidade Anhembi Morumbi, São Paulão 2005.

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