quinta-feira, 18 de março de 2010

Para além de uma viagem...


*Tatiane Nascimento
“E aí, como foi a viagem? Gostou lá de Reggio? O que você trouxe de lá?”
      Foram estas as perguntas que escutei de amigos, parentes, colegas de trabalho, enfim pessoas ansiosas para ouvir minha voz respondendo cheia de entusiasmo.
     Mas logo nos primeiros dias tive uma sensação diferente: a de que eu não poderia explicar como me sentia inteiramente. Certo, uma viagem é sempre muito bom, conhecer e sentir a cultura dos lugares, suas marcas e seu presente é sempre prazeroso; mas eu queria dizer de um algo mais, que quase não se traduz, se não se vive.
     A cidade de Reggio Emília tem um mais além, algo que encanta com naturalidade, como a calma que acompanha uma conquista já esperada. O fascínio veio pra mim devagar, sem espantos e estardalhaço, chegou de mansinho, bem no estilo baiano. Porém chegou para ficar.
     Aterrisar, e sentir o vento frio no rosto, mãos, experimentar esta sensação, foi maravilhoso. Observar a arquitetura, a neve, os interiores, a iluminação natural, o céu e a chuva, as pessoas, tudo novo e encantador.
Mas como explicar o algo mais na cidade e no sistema educacional de Reggio?
Vou tentar:

     Conhecendo as conexões diretas entre a arquitetura e a pedagogia, eu enfim pude acreditar no sonho. “Nossa, uma arquitetura a disposição de uma pedagogia, é possível, isto existe!” Isto sim foi um estupor, um OH! Perceber concretamente como se dá esta interlocução que demonstra uma concepção dialógica, sistêmica, da educação infantil. Como nos disse Paola Cavazzoni nos encontros no Centro Loris Malaguzzi, “o ambiente é um valor e conteúdo da prática educativa”. Para mim, isto é acreditar na complexidade do conhecer, acreditar que existe muitas formas de conhecer, mas existe também solidariedade real entre os saberes dentro da escola.
     Outro aspecto admirável é acreditar na competência da criança em ser o que ela é hoje, valorizar suas capacidades naturais de construir seu saber. As crianças são protagonistas reais, e não só possíveis. Sua visão de cidade e de sociedade é vivenciada também pelos olhos do adulto. Esta co-autoria é sentida nas visitas às escolas, nas discussões, na disposição de cores, materiais, composições, nas vozes das pedagogistas, atelieristas e das crianças.
    Esta é uma concepção de escola e de educação sem métodos rígidos, currículos engessados e modulados. É uma construção cotidiana de uma escolha educativa; cresce e se desenvolve sem a linearidade que estamos acostumados, ela é uma espiral, que vai e volta, tocando pontos de tensão/ intersecção. Neste sentido, se aproxima mais da nossa proposta de oferecer um currículo flexível, com um eixo norteador, interdisciplinar, que é experimentada periodicamente no centro municipal de educação infantil, com todos os desafios deste contexto.
     Um outro ponto que chamou a atenção é a concepção e relação de respeito pela produção dos grupos. Em geral, o fruto de pesquisas e de projetos desenvolvidos não é descartado pela escola pois, como saber resultante, ele permanece, se mantem na comunicação, dialogando ainda com as crianças, mostrando um saber adquirido que não é descartável, que se fixa nas paredes para dizer: “Ei, estou aqui, lembra do que você descobriu, conheceu?” Se mostrando e querendo mais, este algo mais tão mágico que as escolas de Reggio cultivam na sua essência.
     A visibilidade dos processos educativos através das Mostras, de muita qualidade e de intenso valor estético é outra marca significativa. A presença metodológica da documentação, compondo o registro dos processos diferenciados de ensino-aprendizado das crianças concede ao professor um perfil de cientista, um pesquisador da prática educativa.
    Viver Reggio por uma semana significa o fortalecimento de uma inquietação própria, de um querer fazer diferente, se inspirando na força, na paixão e na concepção de criança como sujeito do agora, cidadão do hoje, de potenciais abertos e dinâmicos, de diálogos permitidos e de pesquisa e avaliação constantes. Envolve também conceitos de adulto/criança, professor mediador e pesquisador, sócio-construtivismo, ética, participação e cidadania, pontos tão fortes para uma educação de qualidade. E o mais importante: vontade de se permitir mudar, rever, crescer enquanto ser humano.
     Esta viagem, com seus itinerários e adaptações de clima, espaço, língua, emotividades, relações e descobertas, representa o começo de uma longa trajetória de novas incursões teóricas, novas experimentações, diálogos, embates e crescimento. Ter tido a coragem e ousadia de estar em Reggio impulsionou um forte desejo de continuidade das conexões e fortaleceu a certeza de que podemos sim, fazer uma educação infantil movida por pesquisa, afeto, respeito e cidadania. É mesmo para além de uma viagem...



* Tatiane Nascimento é vicediretora do Centro Municipal de Educação Infantil Cid Passos
Salvador - Bahia

Um comentário:

Alba disse...

Tati,

Que texto lindo, sensível, que busca traduzir a alma de Reggio!
Fico muito feliz com a sua aproximação pela pedagogia da escuta, entusiasmo e desejo de ajudar a transformar a Educação Infantil da nossa cidade!
Conte sempre conosco.

Alba Bezerra
REDSOLARE BRASIL