terça-feira, 24 de novembro de 2009

Descobrindo a infância




*Thaís Bonini

Fui a Reggio Emilia em fevereiro de 2009, a trabalho. Sou tradutora e intérprete da língua italiana e tive a belíssima oportunidade de ter sido convidada a acompanhar o grupo de estudos do Brasil, para auxiliar no intercâmbio linguístico entre os dois paîses, através de traduções simultâneas e consecutivas.

Inicialmente, acreditei que seria um trabalho importante para a minha carreira, mas depois vi que tal trabalho mudaria minha vida e minha maneira de enxergar a infância. Conheci Reggio Emilia, visitei escolas, traduzi palavras verdadeiras, presenciei outra maneira de se ver - através do olhar de uma criança. A cidade respira educação, respeito à infância, vontade de realizar, graças às mães do final da Segunda Guerra Mundial, heroínas visionárias, que tiveram a consciência de que só é possível transformar e reconstruir através da educação.
O trabalho foi ótimo. No decorrer de uma semana, convivi com pessoas fantásticas do Brasil, do México e da Itália. Pessoas que, acima de tudo, têm a tal vontade de realizar, de aprimorar o seu trabalho, de dialogar com outras realidades, de vivenciar algo novo e tentar adequá-lo à realidade de seu próprio país, sempre visando e lutando pelo direito à infância, ao qual todas as crianças do mundo deveriam ter acesso.
Algumas percepções tiveram um impacto muito grande sobre mim. Uma delas foi a participação e interesse dos pais no processo educativo de seus filhos. Uma das mães, durante a apresentação de Marília Dourado e Luciana Balbino sobre o sistema educacional brasileiro, ficou surpresa pelo fato de que, em nosso país, a criança que vai a escola é educada para competir. Desde pequena, ela deve estudar nos melhores colégios, tirar as melhores notas, estudar uma língua estrangeira, para passar no Vestibular, ingressar numa boa universidade e ter um lugar reservado no mercado de trabalho. A mesma mãe salientou que a única coisa que ela espera para o seu filho é que ele seja feliz, que as suas habilidades e a sua criatividade sejam estimuladas e não importa o que ele decida fazer no futuro, o importante é se encontrar, é estar realizado.
Em Reggio Emilia, a criança é um artista. Ela cria, ela observa, ela faz. O estímulo que parte dos adultos, tem seu fundamento numa curiosidade ou numa idéia lançada pela criança. Isto nos foi muito bem explicado por Lanfranco, atelierista da Escola Paulo Freire, que, naquele momento, estava trabalhando com as crianças nos bancos do jardim externo à escola, pertencente ao município. Uma das crianças lançou a idéia de que os bancos do jardim estavam velhos e feios. A partir daí, resolveram fazer um projeto arquitetônico de novos bancos. Foram até o jardim, sentaram-se, deitaram-se, sentiram os bancos. Depois, com argila, cada criança começou a criar o seu banco. Surigiram bancos fantásticos, em forma de dinossauro e de animais vários. Então, o projeto foi levado até a Prefeitura, que iria mandar produzir os novos bancos, criados pelas crianças, para substituirem os velhos e feios.
Foi também muito emocionante a palestra que traduzi de Carla Rinaldi, sobre a Pedagogia da Escuta. Suas palavras foram, ao mesmo tempo, de uma verdade, uma lucidez e uma emoção tão grandes, que não consegui conter a minha emoção durante a tradução simultânea. Em palavras breves, a criança já nasce com o seu potencial de criação, de descoberta do mundo e de socialização com o outro. Ela é forte, é potente, é capaz. Cabe a nós, adultos, sabermos escutar o que ela tem a dizer, estimular as suas curiosidades, auxiliá-la em suas descobertas. A escola dá a ferramenta, a criança encontra os diversos significados e sentidos para o mundo em que vive e para o seu próprio mundo.
Muitos foram os momentos de descoberta e de aprendizagem durante a viagem a Reggio. A partir daí, decidi participar mais ativamente no sentido de ajudar a transformar o sistema educacional de meu país. Pretendo estudar Pedagogia e me aprimorar sempre mais nas práticas regianas. Agradeço a Marília Dourado por ter me apresentado às idéias de Loris Malaguzzi e por ter me dado a oportunidade de trabalhar em Reggio. Agradeço também a Deus por ter-me aberto as portas para uma nova conscientização, já que, por ser mãe, exerço uma função muito importante: a de educadora.





*Tradutora-Intérprete de Italiano
Diretora da Conexão Idiomas – Assessoria Linguística em Salvador/BA

Um comentário:

Paloma Siqueira disse...

Olá Thais, sou como você, conheci à pouco a arte de educar e me apaixonei por ela, a cada dia tenho sentido mais desejo de experiencias como essa que você teve.
Infelizmente tenho a dificuldade da língua, só me comunico bem no português.
Tenho pensado em fazer essa viagem, mas fico com medo que não seja proveitosa por esse motivo.
O que você me diz com a experiencia que você teve?
Saber o Italiano fluente é muito importante para isso?
Obrigada